sexta-feira, 3 de abril de 2020

1964: o ano em que nasceu a beatlemania

Não tinha como dar errado. No auge da Beatlemania, em 7 de julho de 1964, estreava o filme A Hard Day’s Night, dirigido por Richard Lester na esteira do sucesso de Summer Holiday (Peter Yates, 1963), com o astro pop Cliff Richard – outra comédia musical. O filme de Lester é rápido, juvenil, a cara do Free Cinema – o movimento cinematográfico moderno que estourou na Inglaterra no final da década de 1950. O público foi em peso às salas – os exibidores estavam em êxtase. E a primeira coisa que os espectadores ouviram foi o forte acorde de guitarra da abertura de “A Hard Day’s Night”, música que deu título ao filme. E também ao disco, catapultado pelo sucesso estrondoso nas telas. A música soou tão marcante aos ouvidos da época que também em 10 de julho saiu em single, paralelamente ao disco. Assim, bolsos de todos os tamanhos podiam levar algo novo dos Beatles para casa.

Composta por John Lennon, que faz a voz principal, além de tocar violão e guitarra base, a música deixa explícita a vertente mais pop (menos rhythm and blues) que será explorada pelo quarteto a partir daí. Talvez ela fique mais clara na terceira estrofe, quando a voz de Paul, predominante nesse trecho da música, soa como um contraponto suave à de Lennon, enquanto o cowbell e os bongôs de Ringo dão o toque de exotismo.

A parede de guitarra e violões formam uma espécie de “wall of sound” – a muralha sonora implantada por Phil Spector, muito antes do trabalho do produtor com a banda (que viria a acontecer só com Let It Be, de 1970). E o final, sugerido por George Martin, com a guitarra em arpejo de George Harrison e o fade out, antecipa o tipo de psicodelia que a banda abraçaria dois anos depois, em Revolver.

<strong>Working like dogs.</strong>Bettmann/Getty Images

Mas voltemos a 1964 e à música mais emblemática que a banda compôs nesse ano. A ideia para o título (“Noite de um dia difícil”) surgiu de um dia duro de trabalho, quando Ringo, já prestes a capotar de cansaço, comentou que estava sendo “a hard day…”, olhou para a janela, viu que já estava escuro, e prontamente corrigiu “… night”. John achou a frase engraçada e a incluiu em seu livro In His Own Write (composto de contos e poemas). Richard Lester leu e gostou da ideia para o nome do filme. Então Lennon compôs a música, que seria a última da safra para a trilha sonora.

A letra, tola e eficiente como quase todas as outras do pop daquele momento, fala em trabalhar como um cachorro para conseguir dinheiro, e da compensação de ser tratado bem pela namorada ao chegar em casa. McCartney afirma ter colaborado na composição, provavelmente na parte em que faz a voz principal – porque John não alcançava as notas. Taí um ótimo exemplo de como um ajudava a melhorar as composições do outro, fazendo valer a assinatura conjunta.

O mesmo estilo de violão de “I’ll Be Back”, embora mais suave, menos percussivo, numa música anterior e mais famosa, composta para o filme A Hard Day’s Night. A canção aparece numa sequência em que John canta para Ringo num estúdio de TV, pois não havia cena de amor no roteiro. Lennon afirma que a compôs sozinho, enquanto McCartney defende que é uma composição dos dois.

<strong>“More than just holding hands.”</strong>Michael Ochs Archives/Getty Images

A voz principal é de John, mas no refrão as duas vozes, dele com Paul, se juntam criando uma harmonia melancólica, em ligeiro contraste com o tom sacana, embora receoso, da letra, em que um homem pede à amante que o ame incondicionalmente – mas caso ele se separe da esposa. Espertinho.

A gaita e a voz dobrada de John Lennon são as marcas principais desta canção simples e direta, que caberia perfeitamente no álbum Please Please Me. É outra das músicas que John compôs sob influência do LP The Freewheelin’ Bob Dylan, que não saía de sua vitrola.

Composta por John e Paul para que George a cantasse, foi descrita por Paul como uma canção de fórmula, e por John como uma música que ele nunca cantaria. Sua melodia, contudo, merecia maior consideração da dupla de compositores, e o arranjo de guitarras tem valor evidente.

Um clima caribenho embala esta música romântica de Paul McCartney, em que John Lennon colaborou com a parte intermediária (“A love like ours, could never die…”). Feita provavelmente para sua namorada na época, Jane Asher – embora Paul afirme que não tinha ninguém em mente quando a escreveu (ahan…) –, “And I Love Her” mostrou o talento natural do Beatle para compor baladas sentimentais. Musicalmente, é uma das gravações mais sofisticadas da primeira fase da banda, com o vocal dobrado de Paul e a delicadeza nas mudanças de tom no dedilhar do violão de George Harrison. Não é à toa que demorou três dias para ser gravada. “Foi a primeira ‘Yesterday’ de Paul”, disse John – muito antes de começarem as batalhas de insultos entre os dois Beatles.

Esta é mais uma canção com voz duplicada em estúdio. Desta vez, a de Lennon, seu compositor. É uma das faixas mais rascantes do LP A Hard Day’s Night, cheia de guitarras e a voz rouca de John, em convivência harmoniosa com as de Paul e George. O produtor George Martin toca piano, numa linha de curiosa sinergia com o baixo de Paul. E John sublinha a semelhança com as canções de grupos vocais de garotas americanas, no estilo das Shirelles ou das Ronettes.

Outra das canções que mostram como era especial quando a dupla de compositores principais dos Beatles estava em total sintonia. Composta por John, teve a ajuda de Paul na parte instrumental, de incrível simplicidade, que introduz a última parte. Foi a última faixa gravada para A Hard Day’s Night. A curiosidade é que McCartney canta o segundo “any time at all” do refrão porque John não conseguia alcançar a nota certa.

No ritmo do country-rock, este é um chamado de desespero de John, que aprendeu com Bob Dylan a escrever letras mais confessionais, em que expunha seu medo de rejeição e até, neste caso, um desejo de vingança. A música foi composta para uma sequência específica do filme A Hard Day’s Night, mas o diretor Richard Lester preferiu usar “Can’t Buy Me Love”, de McCartney. No lançamento do filme em vídeo, “I’ll Cry Instead” foi incluída em um prólogo. Lester protestou e a música sumiu novamente.

Escolhida para lado B do single de “A Hard Day’s Night” na Inglaterra, é uma composição de McCartney que reflete as crises de seu relacionamento com Jane Asher – eles viviam um namoro de altos e baixos. Mais uma canção sobre as razões do coração. Paul e John eram jovens e lidavam pela primeira vez com o sucesso. Sobre o que mais poderiam compor?

A Hard Day’s Night é um álbum – e um filme – dominado por canções de John, compositor mais prolífico da banda naquele período. “Can’t Buy Me Love” é uma das três únicas com autoria de Paul – as outras são “And I Love Her” e “Things We Said Today” –, e a mais roqueira. Com melodia e arranjo que marcam pela simplicidade, Paul escancara sua influência de Little Richard enquanto George tem a oportunidade de um solo de violão no estilo de Carl Perkins.

<strong>“The kind of thing money just can’t buy.”</strong>Mirrorpix/Getty Images

Lançado antes do filme e do disco, foi o primeiro single dos Beatles em 1964, e ocupou o primeiro lugar nas paradas de diversos países, além da Inglaterra e dos EUA. No álbum anterior da banda, With the Beatles, eles gravaram um sucesso da Motown chamado “Money”, cuja letra dizia que o “dinheiro compra tudo”. Bem, para os Beatles, não podia comprar amor.

Por favor, deixem esse cara chegar em casa logo. A canção abre com um coro de gritos (“ouohaaa”), que dá lugar à voz rouca de Lennon e às coisas que ele tinha a dizer para sua namorada – e a fazer com ela – quando chegasse. É mais uma música com influência das Shirelles, girl group novaiorquino que Lennon amava. Está no lado B de A Hard Day’s Night, e foi gravada numa das últimas sessões para completar o disco. O que não significa que seja um simples tapa-buraco.

Lado B de “Can’t Buy Me Love”, esta penúltima faixa de A Hard Day’s Night desmente a ideia de que George Martin sempre colocava as mais fracas no fim do disco, antes de uma faixa que o encerrasse de forma grandiosa. Lennon a compôs num tom mais ameaçador do que o autopiedoso de costume, e se arrisca em um solo de guitarra sujo e simples, no lugar de George, o solista titular.

Os Fab Four podem não ter inventado esse tipo de levada dominada por acordes de violão tocados de modo percussivo (que seria seguido por bandas posteriores, como Electric Light Orchestra), mas certamente foram eles que deram sua feição definitiva. É o mesmo estilo que encontramos em “If I Fell”, deste mesmo disco. John Lennon compôs as duas canções.

Faixa de abertura de Beatles for Sale, segundo álbum da banda em 1964, é um pop simples na concepção, com palminhas e tudo, que remete ao material do ano anterior. Mas tinha como novidade algumas excentricidades da gravação – o forte bumbo sublinhando os momentos dramáticos, por exemplo. A autoria é de John, e o trabalho em estúdio tornou-a inesquecível.

Segunda faixa do LP Beatles for Sale, “I’m a Loser” foi composta por Lennon, no alvorecer de sua paixão pela música de Bob Dylan. John mostra um alcance vocal como nunca antes havia acontecido, com breve mudança de registro para o grave após uma rouquidão selvagem e chorosa no início.

<strong>O Bob Dylan de Liverpool.</strong>Michael Ochs Archives/Getty Images

É uma música sobre rejeição amorosa e hipocrisia, com backing vocals melódicos de Paul e a guitarra solo de George. Segundo McCartney, esse foi um chamado por ajuda de John. Foi o jornalista Kenneth Allsop que o aconselhou a soltar suas emoções nas letras. Ele estava certo.

A garota está de preto porque não é correspondida no amor. Esta faixa se destaca pela sofisticação das melodias vocais: Paul faz a mais alta e John, a mais baixa. Ambas gravadas no mesmo microfone, por insistência da dupla. É outro exemplo de intensa colaboração entre Lennon e McCartney, mas num ano em que isso tinha ficado menos frequente – eles já sabiam que as composições inacabadas de um seriam aprimoradas pelo outro. Não dependiam mais do olho no olho.

Escrita aos 16 anos, quando Paul já estava sob influência de Buddy Holly, chegou a entrar para o repertório dos Quarrymen – a primeira banda de que McCartney participou, liderada por John. O adolescente preferia seguir o sol quando a chuva se avizinhava, metáfora para sua autossuficiência no amor. É uma das três de Beatles for Sale que Paul compôs sozinho (com “What You’re Doing” e “Every Little Thing”).

Composição de Roy Lee Johnson, é uma das músicas que tiveram sua versão definitiva na execução dos Beatles – mas a original não é lá essas coisas, o que ajuda nesse conceito. John faz a voz principal, e inicia com um berro de tom lamentoso, que será continuado nos momentos em que canta solo. O órgão Hammond que predomina no instrumental é de Paul.

Os Beatles prestam tributo a um de seus maiores ídolos, Little Richard. O cantor e pianista americano imortalizou a canção de Jerry Leiber e Mike Stoller, gravada por muitos desde que foi composta, em 1952. A influência de Richard era maior em Paul, que canta a música num reforço a uma herança que já era óbvia.

Em A Hard Day’s Night não havia uma única música cantada por Ringo Starr, o Beatle da voz menos atraente. Em Beatles for Sale, coube a ele o vocal solo desta versão de uma composição de Carl Perkins, embora ela já tivesse sido cantada por John em shows. Ringo repete sua atitude brincalhona pedindo duas vezes o solo para George (“rock on, George, for Ringo, one time” na segunda vez).

Uma das raras canções dos Beatles em que o compositor não faz a voz principal. Paul a compôs para Jane Asher, mas é John quem a canta majoritariamente, em voz duplicada, cabendo a Paul a voz de harmonia no refrão. É mais uma letra que mostra a autossuficiência – e o egoísmo – do jovem Paul: cada pequena coisa que ela faz, ela faz para mim. O romance com Asher durou até 1968.

A canção foi inspirada por um motorista que levava Paul McCartney à casa de John Lennon. Ao ser perguntado se andava muito ocupado, o condutor respondeu: “eu trabalho oito dias por semana”. Nascia dessa maneira a canção que, décadas depois, em 2016, daria nome a um documentário do diretor Ron Howard (de Apollo 13 e Uma Mente Brilhante) sobre os incessantes shows da banda nos EUA, durante a Beatlemania.

<strong>“Ain’t got nothing but love, babe.”</strong>Reporters Associes/Getty Images

Muitas vezes composições inteiras dos Beatles surgiam assim, apenas com uma ideia para o título. John e Paul cantam a música, embora a voz de Lennon sobressaia. Lançada como single somente nos EUA, a canção é um dos maiores sucessos da banda – presença constante nos shows atuais de McCartney. Entre as regravações mais destacadas estão a do Procol Harum (1975) e das Runaways (1978).

Escrita por Chuck Berry em 1957, é outra das covers mais celebradas dos Beatles, que só não fizeram a melhor versão dela porque era duro concorrer com o autor, um dos pais do rock’n’roll. Embora fizesse parte do repertório dos shows antigos da banda, eles só a gravaram em estúdio em outubro de 1964, para completar o álbum Beatles for Sale. Destaques para a voz energética de Lennon e para o piano tocado por George Martin à maneira de Jerry Lee Lewis.

Mais um country-rock de Lennon, esta música foi lançada como lado B do single de “Eight Days a Week”, e não dá para disfarçar: foi usada só para preencher o tempo do LP em Beatles for Sale. Considerada uma sequência de “I’ll Cry Instead”, de A Hard Day’s Night, também parece um preâmbulo para a mais bem-acabada “You’ve Got to Hide Your Love Away”, de Help!.

Das seis covers em Beatles for Sale, “Words of Love” é a melhor, embora pouco acrescente à versão original. Seu compositor, Buddy Holly, morreu em um acidente aéreo em 1959, com apenas 22 anos e no auge da fama. Esta versão aparece como uma tardia homenagem dos ingleses a um de seus maiores heróis. Paul e John cantam a melodia principal, e George se esmera em fazer um trabalho de guitarra bem fiel ao homenageado. A canção apareceu no primeiro disco solo de Buddy Holly, de 1958 – o artista já havia gravado um álbum, The Chirping Crickets, em 1957, com sua banda.

<strong>Beatles à venda.</strong>Ralph Morse/Getty Images

Os Crickets (“grilos”) eram uma inspiração para os Beatles (“besouros”) porque era um grupo que compunha boa parte de suas canções – como Lennon e McCartney queriam fazer. Buddy Holly logo prevaleceu como cantor e compositor principal (junto com o produtor Norman Petty), e os Crickets passaram a ser banda de apoio, sem o nome creditado na capa. Coisas da época.

Os Beatles adoravam Carl Perkins, que chegou a participar do disco Tug of War, de Paul McCartney, em 1982. Para o álbum Beatles for Sale, duas de suas músicas foram gravadas: “Honey Don’t”, cantada por Ringo Starr, e esta, um dos números constantes dos shows da banda, interpretada por George. Como Harrison era, na época, o maior fã de Perkins entre os membros da banda, a escolha para fazer a voz principal foi lógica.

Uma das poucas músicas escritas somente por McCartney em Beatles for Sale, é um exemplo da maestria de George Martin na gravação. O próprio Paul reconhece que a canção cresceu muito no estúdio, tendo sido um dos registros mais demorados do álbum. Vale destacar o trabalho vocal, que enriquece as rimas e a melodia, e a batida pesada no início e no fim.

Composta principalmente por McCartney, tem uma referência ao uso de drogas, que na época passou batida: “turn me on when I get lonely” (me deixa ligado quando estou sozinho), escrita poucas semanas depois que os Beatles conheceram maconha via Bob Dylan. Aqui Paul renova seu fervor pelo estilo incendiário de Little Richard, enquanto George Harrison e John Lennon pontuam com guitarras econômicas e Ringo Starr se diverte com um chocalho.

Mais um caso de aproveitamento de canção que estava na gaveta – Lennon a compôs antes de os Beatles existirem. Na gravação, John introduziu uma guitarra influenciada pelo blue beat jamaicano, e a parte instrumental do miolo da música soou como uma tentativa de ska, ritmo que só não se tornou a coqueluche do momento por causa da Beatlemania. A canção foi pensada como parte do filme A Hard Day’s Night, mas foi rejeitada pelo diretor Richard Lester.

Em 1964, Lennon ainda era lado A na maioria das vezes, McCartney era lado B. “I Feel Fine”, de John, foi lançada como single, tendo “She’s a Woman”, de Paul, no lado B. Ambas poderiam enriquecer o material de Beatles for Sale, no lugar de covers tapa-buraco, mas acabaram saindo em compacto, uma semana antes do álbum. Por isso, na Inglaterra, decidiram comercializar single e LP num único pacote.

“I Feel Fine” começa com uma nota forte de baixo, e uma microfonia se intromete até que a guitarra começa a delinear a melodia e a banda toda entra com peso. É um exemplo dos experimentos que a banda fazia nas gravações, incentivada por George Martin, que permitia ideias ousadas e até mesmo erros, como a microfonia – um descuido de John. Martin funcionava como um termômetro das maluquices juvenis dos Beatles. Ele controlava e burilava as invenções do grupo. Era de fato o quinto Beatle.

Mais um tributo da banda a Little Richard – um cara negro e bissexual que se tornaria um dos maiores nomes da primeira década do rock. A gravação original é de 1956, tendo chegado ao número um da parada de rhythm and blues da Billboard.

<strong>“Some fun tonight.”</strong>CBS Photo Archive/Getty Images

A versão dos Beatles abre um EP com o mesmo nome – EP era um produto com quatro faixas, intermediário entre o single e o álbum –, lançado em junho de 1964. Esse disco só tinha uma canção de Lennon e McCartney, o resto era cover. George Martin emula o piano agressivo de Little Richard e Paul aproveita para imitar seu ídolo no vocal.

Cantada por John, não deu muito certo. Ian MacDonald, autor de Revolution in the Head, aponta que Starr perde o tempo da música, “o solo de guitarra é embaraçoso, e o equilíbrio do som é uma bagunça”. A composição é de Larry Williams, de “Dizzy Miss Lizzy”, que a banda gravaria com maior sucesso.

Este rockabilly é a primeira cover de Carl Perkins cantada por Ringo, já que “Honey Don’t” sairia depois, em Beatles for Sale. Mas “Matchbox” fazia parte do repertório da banda em shows desde 1961, e quem cantava era Pete Best. Com a substituição por Starr, o grupo decidiu manter o vocal sob a responsabilidade de um baterista.


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É possível pegar o coronavírus mais de uma vez?

No finalzinho de fevereiro, uma notícia vinda do Japão causou temor: autoridades do país nipônico anunciaram que uma guia turística tinha se recuperado totalmente da Covid-19 e, dias depois, os sintomas retornaram. Exames mostraram que ela voltou a testar positivo para o coronavírus (Sars-CoV-2). Um episódio parecido aconteceu na Coreia do Sul.

Na China, onde a pandemia iniciou, os relatos são mais fortes: ao menos 100 indivíduos que se curaram da doença voltaram a apresentar resultados positivos para a presença dessa ameaça microscópica. Será que o corpo não cria imunidade contra esse vírus, o que favoreceria uma reinfecção?

A verdade é que o mundo está aprendendo dia após dia com o coronavírus. Compreender como os pacientes se comportam até a alta é uma das questões-chave dessa história, pois isso tem o potencial de modificar as políticas públicas adotadas até o momento.

De acordo com a evidência científica atual, a probabilidade de uma reinfecção é remota. Quem aposta nisso é o médico Anthony Fauci, líder da força-tarefa contra o coronavírus dos Estados Unidos e um dos maiores especialistas do mundo em doenças infecciosas. 

Numa entrevista para o programa The Daily Show, do canal da televisão americana Comedy Central, ele afirmou: “Se esse vírus age como qualquer outro que conhecemos, uma vez que você é infectado e se recupera, cria uma imunidade que protege de futuras infecções por esse mesmo agente”. 

Como explicar então esses casos na Ásia?

O coronavírus é uma família com vários integrantes. Alguns deles infectam humanos, como é o caso Sars-CoV-2, responsável pela pandemia atual. Outros preferem morcegos, bois ou galinhas. E a experiência mostra que essa turma têm a capacidade, sim, de atazanar o mesmo ser vivo mais de uma vez. “Reinfecções não são eventos tão raros entre os coronavírus”, observa o virologista Paulo Eduardo Brandão, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo

Por outro lado, segundo as pesquisas disponíveis, tudo leva a crer que esse risco de um bate e volta com o Sars-CoV-2 é bem baixo. Basta levar em conta que já são mais de 1 milhão de casos no mundo todo e ao redor de 100 relatos não confirmados de reinfecção em três países. “As análises também indicam que o novo coronavírus não possui uma alta taxa de mutações, o que certamente é importante”, acrescenta o imunologista Eduardo Finger, diretor do Laboratório de Pesquisa Experimental do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na capital paulista.

Para entender direitinho porque a taxa de mutação dos vírus é relevante quando pensamos na criação de uma resposta imune sustentada, vamos usar como exemplo dois vilões muito comuns: o influenza e o sarampo

Comecemos com o influenza, o causador da gripe: sabe-se que ele se modifica o tempo todo. Isso significa que nosso sistema de defesa perde a capacidade de reconhecê-lo com certa velocidade. Essa, aliás, é a razão de tomarmos a vacina contra a gripe todos os anos: os subtipos de influenza em circulação na nova temporada de frio costumam ser diferentes daqueles que pintaram no ano anterior. 

A mesma coisa não acontece com o sarampo. Por ser um vírus mais estável, basta ter contato com ele uma vez (ou, de preferência, vacinar-se) para que o corpo o detecte e o ataque toda vez que o encontrar. Na maioria das vezes, duas doses do imunizante durante a infância são suficientes para oferecer proteção pelo resto da vida. 

Outra possibilidade: uma interpretação inadequada dos exames

Talvez o que esteja sendo visto como reinfecção, na verdade, seja uma conclusão precipitada dos testes de diagnóstico da Covid-19Um dos métodos mais utilizados hoje no mundo se chama PCR (sigla em inglês para reação em cadeia da polimerase). Essa técnica rastreia a presença de pequenos trechos do código genético do vírus em amostras de um paciente. 

“Sabemos que pessoas que receberam alta após o tratamento para a Covid-19 continuam excretando pedaços do coronavírus, o que daria um resultado positivo num teste desses. Isso, por sua vez, poderia ser entendido como reinfecção quando, na verdade, trata-se de uma infecção primária que não se resolveu totalmente”, explica Brandão.

Que fique claro: o PCR é um dos melhores métodos de detecção. Ele é inclusive recomendado pela Organização Mundial da Saúde e pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. O problema estaria na interpretação de seus resultados num contexto com milhares de pacientes em atendimento. 

Reinfecção ou ainda em recuperação do coronavírus?

Uma terceira explicação para esses relatos nos três países orientais seria o fato de o paciente ainda não estar 100% recomposto da Covid-19 e receber alta antes da hora. Ora, após invadir as células superficiais da boca, dos olhos ou do nariz, o bendito Sars-CoV-2 pode descer pelo sistema respiratório até alcançar os pulmões.

Acontece que o teste de diagnóstico dessa infecção é feito com o auxílio de uma haste flexível com algodão na ponta. Essa ferramenta é introduzida pelo nariz até alcançar o comecinho da garganta. A ideia é esfregar o cotonete ali para retirar um pouco da mucosa, que será analisada no laboratório para ver se há coronavírus ou não no pedaço.

Algumas pessoas que estão se recuperando podem passar por esse exame e não apresentar vírus nessa região das vias aéreas superiores. Mas o agente infeccioso pode estar escondido mais pra baixo, lá nos pulmões. Com o resultado negativo, o sujeito é liberado da internação e, sem os cuidados com a saúde, volta a apresentar os sintomas, uma vez que a carga viral sobe de novo. 

Seguindo essa linha de raciocínio, não estaríamos diante de um quadro de reinfecção, mas, sim, de uma doença que não foi devidamente tratada e curada

Experiência com primatas

Um estudo realizado por um convênio de cientistas chineses acrescentou informações relevantes a essa história. Na experiência, quatro macacos rhesus foram infectados com o novo coronavírus e, após alguns dias, se recuperaram bem. Na sequência, eles tiveram contato novamente com o Sars-CoV-2: nenhum experimentou uma segunda infecção. Nem mesmo quando o vírus foi colocado diretamente no organismo desses primatas.

Apesar de interessante, o trabalho merece ressalvas. “Nós somos próximos de macacos, mas não somos macacos. Há uma série de doenças infecciosas em que o sistema imune deles age de uma maneira diferente do nosso”, pondera Finger. A exposição a um vírus no laboratório também não é a mesma coisa do contato natural, no dia a dia. 

Se, por um lado, não dá pra levar as conclusões do trabalho a ferro e fogo, por outro ele aponta para uma luz no fim do túnel. “O experimento sinaliza que uma futura vacina poderá ser efetiva quando estiver disponível”, analisa Brandão. 

O que se tira de lição dessa história?

Em primeiro lugar, vale reforçar que cientistas, médicos e autoridades em saúde pública estão aprendendo em tempo real a combater o coronavírus e seus estragos. Portanto, é natural que as recomendações se modifiquem conforme o conhecimento avança e novas peças desse intrincado quebra-cabeça são descobertas. 

Caso o risco de reinfecção em larga escala seja verdadeiro e isso fique comprovado por estudos maiores e mais criteriosos (o que não aconteceu até agora), as políticas públicas colocadas em prática atualmente passarão por mudanças. “Esse cenário demandaria um número ainda maior de recursos diagnósticos e exigiria mais do sistema de saúde”, especula Brandão.

Por ora, as evidências indicam que a Covid-19 é mesmo uma doença que só se pega uma vez. O corpo parece que desenvolve, sim, uma memória imunológica para debelá-la caso o coronavírus tente uma segunda invasão. Em meio a um cenário tão desolador, eis ao menos uma boa notícia.


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Governo terá acesso a localização de celulares para monitorar quarentena

Na sexta-feira passada (27), o Ministério da Ciência, Inovação, Tecnologia e Comunicação publicou um vídeo no Twitter em que Marcos Pontes anuncia uma colaboração do Governo Federal com as cinco principais operadoras de telefonia móvel do País para rastrear a localização de 222,2 milhões de linhas. O objetivo é ficar de olho em aglomerações e antever o espalhamento do novo coronavírus. O vídeo foi apagado logo em seguida sem justificativa por parte do MCITC, mas usuários salvaram o conteúdo na íntegra. Na quinta (2), as operadoras finalmente oficializaram a medida. As informações são do UOL Tilt

“As operadoras – Algar Telecom, Claro, Oi, Tim e Vivo, atuando em parceria – vão fornecer os dados de mobilidade originados pelos celulares nas redes móveis ao MCTIC, que possui uma sala de acompanhamento do tema e poderá disponibilizar as informações a todas as esferas do poder público”, afirmou o Sinditelebrasil, sindicato das empresas de telefonia, em um release publicado quinta (2) de manhã.

Eles garantiram que “os dados fornecidos visam exclusivamente o combate à covid-19. Estarão em nuvem pública (data lake) e organizados de forma agregada (…) e anônima, de acordo com as normas da Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e do Marco Civil da Internet”. Pontes também garantiu que não haverá problemas de privacidade. Caso você esteja se perguntando, um data lake é um repositório de dados desestruturado, com as informações em estado bruto. Não se parece em nada com uma planilha de Excel.

Em uma metrópole, é possível usar a localização das antenas a que cada chip se conecta para acompanhar, ao longo do dia, o deslocamento de milhares ou milhões de pontinhos dos subúrbios para o centro ou vice-versa nos horários de pico. Os pontinhos não são identificados, mas o movimento da população como um todo é visível em um mapa.

Com as medidas de distanciamento social e home office, houve uma queda sensível no movimento pendular diário de trabalhadores e estudantes. Neste contexto, aglomerações anormais de pessoas podem se sobressair.

As operadoras já haviam percebido isso: em 26 de março, Leonardo Capdeville, CTIO da TIM, afirmou em entrevista ao UOL: “Depois das medidas de restrição, a gente vê que essa massa não se desloca e a concentração permanece naquelas áreas iniciais”. Inspirado em medidas parecidas implantadas na Coreia do Sul e na Itália, Capdeville afirmou já estar cooperando com a prefeitura do Rio de Janeiro. Na quarta (1º), a Telefônica (Vivo) também anunciou um acordo de cooperação com o governo de São Paulo para uso de dados de deslocamento.

Fornecer essas informações às autoridades pode ajudá-las a acompanhar a pandemia, mas é essencial que tudo seja utilizado de maneira responsável e apenas para os fins anunciados.

Em teoria, o uso de tais dados precisaria ser autorizado previamente pelos usuários, mas a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais abre exceções e prevê boas práticas (como excluir as informações assim que possível e utilizá-las apenas para a tarefa pré-determinada). Além disso, os estados e o Governo Federal declararam calamidade pública – o que flexibiliza algumas normas, afirmou Patricia Ellen, secretária de desenvolvimento econômico, ciência e tecnologia de São Paulo à Reuters. 

A LGPD foi sancionada ainda no mandato de Michel Temer, em agosto de 2018, e entrará em vigor só em agosto deste ano. Ela prevê que os usuários de um serviço qualquer precisam autorizar o uso de seus dados antes do início da coleta e do armazenamento. O Art. 7º afirma que “o tratamento de dados pessoais somente poderá ser realizado nas seguintes hipóteses: I – mediante o fornecimento de consentimento pelo titular.”

O Art. 7º ainda afirma, porém, que o uso dos dados também está autorizado “II – para o cumprimento de obrigação legal ou regulatória pelo controlador; III – pela administração pública, para o tratamento e uso compartilhado de dados necessários à execução de políticas públicas previstas em leis e regulamentos ou respaldadas em contratos, convênios ou instrumentos congêneres (…)”. 

Outro trecho da lei diz que o consentimento é dispensável para dados considerados sensíveis nas mesmas duas hipóteses mencionadas nos incisos II e III ali em cima. Os dados sensíveis são definidos pela lei como dados pessoais “sobre origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou a organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou à vida sexual, dado genético ou biométrico, quando vinculado a uma pessoa natural.” Não há menção a dados de localização. 


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O câncer se esconde por trás de doenças mentais

Já se sabia que portadores de esquizofrenia, TDAH e afins apresentam maior risco de morrer de câncer. Pois uma revisão de estudos da Universidade de Pádua, na Itália, traz um motivo para isso: há menor adesão a exames nessa turma.

Com base nos hábitos de 4 717 839 pessoas, os cientistas descobriram que mulheres com algum transtorno mental são 35% menos propensas a realizar mamografias, enquanto os homens teriam uma chance 22% menor de submeter a própria próstata a check-ups.

“O problema psiquiátrico pode dominar o cotidiano e tirar o foco de outras condições de saúde”, interpreta o oncologista Ricardo Marques, da Rede D’Or, em São Paulo. Fora que, às vezes, esses indivíduos não se dão bem com as máquinas que fazem o rastreamento de tumores e não entendem a necessidade de estarem ali.

Atenção ao bem-estar mental após um tumor

Ficar triste ou abalado com o diagnóstico dessa doença é normal até certo ponto. Por outro lado, o bem-estar dessas pessoas também deve ser abordado para minimizar a probabilidade de depressão e ansiedade. “Não é uma questão de distribuir antidepressivos, mas de verificar se as emoções são adequadas a esse momento”, esclarece o médico Ricardo Marques.


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A história de Apolo, o deus “que fere de longe”

Nenhuma gravidez foi mais sofrida que a de Leto, filha dos titãs Céos e Febe, e uma das amantes favoritas de Zeus. Perseguida pelos ciúmes da implacável Hera, ela penaria para dar à luz dois gêmeos divinos: Ártemis, a deusa da caça, e seu irmão, Apolo – um dos mais fascinantes e multifacetados personagens do Olimpo. “Depois de Zeus, Apolo foi a maior de todas as divindades da mitologia”, escreveu o helenista Walter Friedrich Otto em Os Deuses da Grécia, obra clássica sobre o assunto, publicada em 1928. “E, em certo sentido, ele também foi o mais grego dos deuses”. Isso porque os gregos apreciavam a simetria e a moderação, tanto nas artes como em todos os aspectos da vida, e Apolo representava essas virtudes. Mas o deus percorreu um longo e atribulado caminho antes de se tornar a encarnação da harmonia.

Decidida a punir Leto, a vingativa Hera proibiu que Gaia, a Mãe Terra, abrigasse o trabalho de parto: os bastardos divinos não poderiam nascer sobre terra firme. Não satisfeita, a deusa ordenou que a monstruosa serpente Píton perseguisse a amante de Zeus até os confins do mundo.

Desesperada, Leto buscou repouso em cada uma das ilhas do mar Egeu. Mas foi enxotada de todas: ninguém ousava desobedecer Hera. A salvação veio em Ortígia, uma ilha diferente de todas as outras, pois não estava presa ao leito do oceano. Em vez disso, boiava sobre as águas como um barco. Por isso, estava fora da alçada de Gaia, com a qual não tinha contato algum. Lá, após muito sofrimento, Leto deu à luz os gêmeos.

Emocionado, Zeus prendeu Ortígia ao fundo dos oceanos, transformando-a em uma ilha como todas as outras – agora, rebatizada como Delos. Finalmente, os rebentos de Leto tinham terra firme para crescer em paz. Alimentado com néctar e ambrosia, Apolo se tornou um rapaz alto e esbelto em apenas quatro dias de vida. E imediatamente buscou armas para vingar as agruras de sua mãe. Contou com a ajuda de Hefesto, o ferreiro divino, que o presenteou com arco e flechas de ouro (Ártemis, irmã de Apolo, receberia armas semelhantes, só que forjadas em prata).

Apolo acomodou as setas nas costas e correu para sua primeira grande aventura: matar a pavorosa Píton. A criatura estava vivendo no monte
Parnaso, perto da cidade de Delfos, no centro da Grécia. De arco em riste, Apolo saltou no caminho do monstro e disparou três flechas de uma só vez: uma acertou o olho esquerdo; outra, o peito; e a terceira, a boca da serpente.

Em honra à façanha do deus, os gregos construíram um templo na cidade vizinha: o famoso Oráculo de Delfos. Lá, os fiéis acorriam para consultar as pitonisas – sacerdotisas de Apolo que faziam revelações sobre o futuro. Pois Apolo, o arqueiro infalível, também era considerado o deus da profecia – uma das múltiplas funções do eclético filho de Leto.

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Luz e sombras

De cabelos loiros e sem barba, Apolo tinha a aparência de um rapaz na exuberância da juventude – e, não por acaso, era adorado como protetor dos jovens. Os gregos também o consideravam o patrono da medicina e das artes, principalmente a música. Com sua lira – que havia comprado do meio-irmão mais moço, Hermes –, Apolo dedilhava melodias nos banquetes do Olimpo. Além de tudo isso, era também o deus da luz: sem ele, as trevas desabariam sobre o mundo. Os navegantes gregos não poderiam cruzar os mares escuros e os viajantes ficariam perdidos, sem conseguir enxergar as estradas.

Contudo, a luminosa divindade também tinha um lado sombrio. “Ao mesmo tempo em que estava ligado à medicina, Apolo era visto em alguns casos como um deus que trazia a morte”, explica o helenista Carlos Moreno, autor de Um Rio que Vem da Grécia e outros livros sobre a Antiguidade clássica. Os antigos gregos tinham uma divindade que personificava a morte em geral: Tânatos, um dos filhos da Noite e de Érebo.

O aspecto mortífero de Apolo, contudo, era mais específico e cruel: ele representava as mortes repentinas e as epidemias que atingiam cidades. Quando alguém morria em um acidente inesperado ou tombava com uma doença sem cura, por exemplo, os gregos acreditavam que a pessoa havia sido atingida por uma flecha do infalível arqueiro divino – que, nos poemas de Homero, era chamado “aquele que fere de longe”.

Mais de uma vez, o temperamento orgulhoso de Apolo o colocou em conflito com seu pai. Em uma ocasião, o jovem deus chegou a participar de uma conspiração para destronar Zeus. Outra rusga ocorreu por causa de Asclépio, o amado filho de Apolo com a mortal Corônis. Asclépio foi o maior médico da mitologia. Seu talento era tão milagroso que, certa vez, conseguiu trazer um morto de volta à vida. A façanha enfureceu Hades: Asclépio, afinal de contas, roubara-lhe um súdito. O senhor dos mortos exigiu vingança.

Zeus serviu como juiz no caso: decidiu que Asclépio havia desrespeitado os direitos de Hades e, portanto, quebrara a ordem do mundo. Como punição, Zeus matou o médico com um relâmpago. Apolo ficou furioso, mas não ousou atacar o próprio pai. Descarregou a fúria matando a flechadas os três ferreiros que haviam forjado o relâmpago de Zeus: os ciclopes Brontes, Estérope e Arges. O senhor do Olimpo resolveu dar ao filho uma punição exemplar pelo atrevimento: ameaçou jogá-lo no abismo do Tártaro. Mas acabou amenizando a sentença, e condenou Apolo a viver como um simples pastor, na Tessália, durante um ano.

Após esse castigo, Apolo aprendeu sua lição. Jamais voltou a desafiar Zeus e passou a controlar seu gênio vaidoso. Tanto que, além de todas suas outras funções, a divindade de múltiplos talentos se tornou o patrono da harmonia e do autocontrole. Os gregos atribuíam a ele um dos ditados mais repetidos na Antiguidade: “Não faça nada em excesso”.

Louros do amor frustrado

Perseguida por Apolo, Dafne virou uma árvore

Apesar de sua beleza transcendental, Apolo nem sempre foi feliz no amor – tanto que sofreu uma das rejeições mais famosas da mitologia. Por obra de Eros, o deus do amor, Apolo nutriu uma paixão louca pela ninfa Dafne, filha do deus-rio Peneu. Contudo, Dafne sentia uma repulsa irracional sempre que Apolo se aproximava. Certo dia, Apolo tentou tomá-la nos braços. Dafne fugiu, horrorizada.

Por dias, o deus perseguiu sua amada, correndo por bosques, vales e montanhas. Com as pernas fracas e a respiração ofegante, Dafne percebeu que Apolo estava prestes a alcançá-la. Desesperada, rogou socorro a seu próprio pai. “Ajudeme, Peneu! Abra a terra para me envolver ou mude minhas
formas, para que a paixão de Apolo se acabe!”.

Imediatamente, a ninfa sentiu um formigamento pelo corpo. Uma casca áspera e escura começou a crescer sobre sua pele suave. Os dedos dos pés se alongaram, transformando-se em raízes. Os cabelos desgrenhados ganharam uma cor verde escura e, gradualmente, foram se convertendo em
folhagens. Ao mesmo tempo, as mãos e os braços ficaram nodosos e rígidos: viraram galhos. Dafne havia se metamorfoseado em uma árvore: o loureiro.

Ainda embriagado de amor, Apolo abraçou o arbusto, acariciou suas folhas e jurou: “Já que não pôde ser minha esposa, você será a minha planta preferida e vai me acompanhar eternamente. Usarei as suas folhas sempre verdes como coroa e você participará em todos os meus triunfos, consagrando as frontes dos heróis”. A partir de então, o ramo de louros foi o mais célebre símbolo de glória entre os gregos e os romanos – e uma dolorosa lembrança de um amor jamais correspondido de Apolo.


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quinta-feira, 2 de abril de 2020

Coronavírus: quais cuidados pacientes com doenças reumatológicas devem ter

Pessoas que sofrem com artrite reumatoide, lúpus eritematoso sistêmico e outras doenças reumatológicas autoimunes sempre têm uma preocupação com infecções. Por um lado, quando a enfermidade está descontrolada, o corpo fica mais suscetível ao ataque de vírus, bactérias e afins. Por outro, muitos dos tratamentos suprimem as tropas de defesa. Então, o que fazer para reduzir o risco de pegar o novo coronavírus (Sars-Cov-2) e o de sofrer com suas complicações?

Antes de tudo, convém ressaltar que não há estudos confirmando que os indivíduos com reumatismos se integram no grupo de risco para a Covid-19. “Como essas doenças são menos comuns, só teremos certeza disso com o avançar dos casos e das pesquisas”, interpreta o médico Eduardo Paiva, diretor científico da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR). “Mas precisamos tomar as devidas precauções, considerando que nossos pacientes podem sofrer com déficits imunológicos”, completa. Já é certo, por exemplo, que essa população possui maior probabilidade de desenvolver sintomas graves da gripe.

Em um comunicado da SBR sobre o novo coronavírus, vários pontos de cuidado são colocados. Um dos temas mais abordados são as medicações. “Ninguém deve suspender o uso de qualquer remédio, seja um corticoide ou um biológico, sem conversar com o profissional de saúde”, alerta Paiva. Porém, ajustes na dose podem ser realizados, de acordo com a evolução do quadro de cada um.

Um exemplo apontado por Paiva: se a doença está bem controlada, o médico pode considerar ajustar as medicações para que organismo fique um pouco mais preparado para debelar infecções. Agora, deixar o problema progredir livremente sob a alegação de se proteger do coronavírus é um tiro no pé.

Outro ponto importante é verificar a necessidade de consultas presenciais O paciente pode conversar com o profissional de saúde por telefone e sanar suas dúvidas.

O Ministério da Saúde também recomendou que os gestores locais possibilitem aos médicos fazer receitas para remédios de uso contínuo com duração de mais de 30 dias. “É uma ótima medida, porque isso faz com que o paciente se desloque menos para manter o tratamento”, opina Paiva.

No mais, estudos preliminares apontaram um possível risco de o ibuprofeno agravar quadros de coronavírus. A própria Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que as evidências científicas são insuficientes para contraindicar esse anti-inflamatório, porém a SBR pede “cautela na indicação” entre os pacientes com condições reumatológicas. “Como temos muitas outras opções com a mesma ação desse medicamento, podemos substituí-lo sem grandes consequências enquanto aguardamos mais pesquisas”, informa Paiva.

Os cuidados no dia a dia do paciente com doença reumatológica

Eles não diferem muito da população em geral. Lave as mãos com frequência, fique em casa o máximo possível, evite aglomerações, mantenha uma rotina saudável…

No informe da SBR, destaca-se a necessidade de ficar com as vacinas em dia, especialmente contra gripe, pneumococos e coqueluche. As pessoas com doenças reumatológicas podem tomar sua dose do imunizante contra a gripe a partir do dia 16 de abril.


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